Estudo com participação do CEBBI Caatinga aponta bromelina como enzima estratégica para a bioeconomia
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Pesquisa publicada em periódico científico internacional mapeia avanços no uso da bromelina e destaca oportunidades para alimentos, medicamentos, cosméticos e valorização sustentável da biodiversidade da Caatinga
Um estudo científico publicado em 2026 no Journal of the Science of Food and Agriculture apresenta um amplo panorama mundial das pesquisas e aplicações da bromelina, conjunto de enzimas proteolíticas encontrado principalmente em plantas da família das bromeliáceas. Com participação e apoio institucional do Centro de Bioeconomia, Biotecnologia Médica e Inovação da Caatinga (CEBBI Caatinga), a pesquisa evidencia o potencial da enzima como recurso estratégico para a ciência, a inovação e o desenvolvimento de novas soluções baseadas na biodiversidade.
Intitulado “Bromelain as the enzyme of the future: A global bibliometric mapping of its applications and emerging trends”, o artigo analisou 904 publicações científicas indexadas na base Scopus entre 2020 e 2024. O levantamento avaliou a evolução da produção científica, redes de colaboração, países e instituições que mais atuam na área, fontes de financiamento e tendências tecnológicas relacionadas à bromelina.
Cresce o interesse científico pela bromelina
Os resultados mostram uma expansão significativa das pesquisas sobre a enzima. O número anual de publicações aumentou de 151 trabalhos, em 2020, para 220, em 2024, maior volume registrado no período analisado.
China, Índia e Itália aparecem entre os países de maior produção científica sobre o tema. O Brasil também se destaca, figurando entre os dez países que mais publicam sobre bromelina, com 36 trabalhos identificados no levantamento.
O estudo também evidencia a relevância do financiamento público brasileiro para o avanço dessas pesquisas. CNPq, Capes e Fapesp aparecem entre as dez principais instituições financiadoras dos trabalhos analisados.
Um mapa global das aplicações
Uma das principais contribuições do artigo é reunir e organizar uma área científica que envolve diferentes campos do conhecimento. A análise identifica três grandes frentes de investigação relacionadas à bromelina: aplicações clínicas e terapêuticas; processamento de alimentos e degradação de proteínas; e produção de peptídeos bioativos, incluindo aqueles com propriedades antioxidantes e anti-hipertensivas.
Na indústria de alimentos, a enzima vem sendo estudada para aplicações como amaciamento de carnes, clarificação de bebidas, coagulação do leite na fabricação de queijos e produção de hidrolisados proteicos.
Esses hidrolisados podem apresentar propriedades nutricionais, tecnológicas e bioativas de interesse para o desenvolvimento de alimentos funcionais e outros produtos de maior valor agregado.
Outro aspecto relevante está relacionado ao aproveitamento de resíduos agroindustriais. Cascas, talos e outras partes do abacaxi que normalmente seriam descartadas podem ser utilizadas como matéria-prima para processos de obtenção e aplicação da bromelina. A estratégia contribui para reduzir desperdícios e criar alternativas alinhadas aos princípios da economia circular.
Potencial também para saúde, cosméticos e indústria
Na área farmacêutica, as pesquisas analisadas investigam diferentes propriedades da bromelina, incluindo potenciais efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes, analgésicos e antitumorais. Também são estudadas possibilidades relacionadas a sistemas de liberação controlada, tratamento de queimaduras e neuroproteção.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que diversas dessas aplicações ainda estão em fase de investigação e dependem de estudos adicionais e validação clínica antes de serem convertidas em novas terapias.
O potencial da bromelina ultrapassa os setores de alimentos e saúde. Na indústria cosmética, a enzima é investigada para utilização em formulações esfoliantes e produtos de higiene bucal. Já no setor têxtil, pesquisas avaliam sua aplicação em processos de tratamento de seda e lã, com possibilidade de reduzir a utilização de substâncias químicas mais agressivas.
Biodiversidade da Caatinga pode ampliar as fontes de bromelina
Entre os aspectos mais relevantes para o CEBBI Caatinga está a possibilidade de ampliar a busca por fontes de bromelina para além do abacaxi.
A família das bromeliáceas reúne aproximadamente 3.652 espécies distribuídas em 78 gêneros, mas apenas uma parcela dessa diversidade foi investigada quanto ao potencial de produção de enzimas.
Nesse contexto, a Caatinga apresenta uma biodiversidade de grande interesse científico e biotecnológico. Plantas adaptadas às condições de calor, seca e variações ambientais podem apresentar enzimas com características diferenciadas de estabilidade e funcionamento.
O artigo destaca, por exemplo, pesquisas envolvendo a macambira (Bromelia laciniosa), espécie associada ao semiárido brasileiro. Estudos já identificaram atividade de proteases dessa planta na produção de hidrolisados bioativos, indicando possibilidades de aproveitamento de espécies nativas e adaptadas ao território.
A investigação dessas fontes pode contribuir para a identificação de enzimas capazes de apresentar maior resistência a diferentes temperaturas, níveis de acidez e condições encontradas em processos industriais.
Essa diversidade bioquímica abre perspectivas para o desenvolvimento de novos produtos, processos mais eficientes e cadeias produtivas baseadas de forma sustentável nos recursos biológicos do semiárido.
CEBBI Caatinga aproxima biodiversidade, ciência e inovação
A participação de pesquisadores vinculados ao CEBBI Caatinga reforça a importância de conectar a biodiversidade regional às agendas científicas e tecnológicas de alcance internacional.
Duas autoras do estudo, Mônica Tejo Cavalcanti e Mônica Correia Gonçalves, possuem vínculo institucional com o Centro, que também recebeu reconhecimento dos autores pelo apoio à realização da pesquisa.
A atuação do CEBBI Caatinga está alinhada à construção de uma agenda que integra bioeconomia, biotecnologia médica, ciência e inovação, aproximando o conhecimento produzido nas instituições de pesquisa das demandas sociais, ambientais e produtivas do território.
Nesse sentido, estudar a biodiversidade da Caatinga representa não apenas uma estratégia de conservação, mas também uma oportunidade para gerar conhecimento, estimular a inovação e identificar alternativas capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável do semiárido.
Desafios também fazem parte da agenda de pesquisa
Apesar do potencial identificado, o estudo aponta desafios que ainda precisam ser enfrentados. A bromelina pode apresentar perda de atividade em temperaturas elevadas, enquanto os processos de extração e purificação ainda podem envolver custos significativos.
Entre as questões que demandam novas investigações estão a estabilidade da enzima em condições reais de processamento e armazenamento, sua interação com outros componentes e a viabilidade econômica de tecnologias como a microencapsulação.
Esses desafios também ajudam a definir novas fronteiras para a pesquisa e a inovação.
Ciência da Caatinga com potencial de alcance global
Ao mapear tendências internacionais e apontar possibilidades ainda pouco exploradas, o estudo reforça a importância de pesquisas que conectem a biodiversidade brasileira às demandas globais por alimentação sustentável, saúde, inovação tecnológica e aproveitamento responsável dos recursos naturais.
Para o CEBBI Caatinga, essa perspectiva representa uma oportunidade de fortalecer a produção científica e tecnológica a partir das características únicas do semiárido.
A pesquisa sobre a bromelina demonstra, assim, como a biodiversidade pode se transformar em conhecimento e inovação quando associada à ciência, à tecnologia e a estratégias responsáveis de bioeconomia. Ao incentivar essa conexão, o CEBBI Caatinga contribui para projetar o semiárido brasileiro como um território de pesquisa, inovação e desenvolvimento sustentável.
Referência
SILVA NETO, Genésio José da et al. Bromelain as the enzyme of the future: A global bibliometric mapping of its applications and emerging trends. Journal of the Science of Food and Agriculture, 2026. DOI: 10.1002/jsfa.70751.




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